Decodificando as Epístolas de Paulo
Introdução
A lei de Deus é um ponto muito mal compreendido pela maioria dos irmãos em Cristo, que por não olharem para o restante das Escrituras acabam por se confundirem nas palavras que Paulo tinha em mente. Entretanto, quando temos a correta compreensão da Lei de Deus em nossas vidas, Deus abre uma grande porta para a compreensão de muitos outros pontos da Escritura e, assim, podemos até mesmo compreender com plenitude o que significa a graça de Deus. Através deste estudo, tentarei deixar claro o que Paulo tinha em sua mente para se referir à Lei de Deus e o porquê dele se utilizar de alegorias, como no caso de Sara e Hagar, que foram duas mulheres de Abraão. Assim como foi nos dias de Paulo, também em nossos dias temos visto que uma presença judaica tem atacado a igreja de Deus para que a mesma se torne como serva e não como livre. Muitos grupos têm se levantado e chamado a Igreja de Deus para praticar a “antinomia”, mas seria isso o que realmente os cristãos estão praticando?
Basicamente, a compreensão das palavras escritas por Paulo nas suas Epístolas tem o sentido de fazer o leitor compreender a mente de Deus em relação à Lei. Todo o pano de fundo que fez com que Paulo compreendesse estas coisas foi a compreensão dos profetas por meio do Espírito. Logo, para isso, será necessário que o leitor tenha já um conhecimento razoável em relação aos profetas e também da “Torá”, ou seja, o pentateuco, a Lei de Moisés. Inúmeras vezes vemos alguns grupos religiosos atacando os cristãos por não guardarem a Lei, dizendo que os mesmos estão debaixo de maldição. Todavia, veremos que tais afirmações não passam de falácias, mas que sim, o povo de Deus pratica a Lei de Deus, não em Sombras, mas na realidade e verdade que Deus mesmo preparou para que nelas andássemos.
Gálatas, Romanos e a Mente de Paulo
Frequentemente, vemos que alguns irmãos não conseguem compreender de forma clara o que estas duas Epístolas de Paulo querem dizer, entretanto elas são extremamente reveladoras, dando sabedoria a quem as compreendem para entenderem os mistérios de Deus. Necessário é ler as duas Epístolas, já que as mesmas são epístolas irmãs e tratam dos mesmos assuntos, contudo Gálatas tem o enfoque principal em falar da Lei de Deus, enquanto Romanos também tratará de outros assuntos. Nestas duas epístolas podemos observar que Paulo utilizará de expressões como “debaixo da Lei” e “obras da lei”. Tais expressões fazem com que muitos grupos interpretem de formas diferentes, como por exemplo os judeus messiânicos que alegam que tais palavras significam “leis rabínicas” e que, portanto, Paulo estaria combatendo os “rabinísmos” e assim o crente em Cristo deve guardar todos os preceitos descritos no livro de Moisés. Por sua vez, os adventistas dizem que tais expressões apenas querem tratar da Lei cerimonial do antigo testamento e que em Cristo tais cerimônias foram abolidas, porém a Lei moral de Deus, no caso os dez mandamentos, não está ligada a tais expressões.
Neste estudo eu procurarei, baseado nas próprias escrituras, compreender o que estas palavras de fato queriam dizer e qual o sentido prático que isso trará para as nossas vidas.
As Descendências
Devido as frequentes correrias do dia-a-dia, muitas vezes não damos a devida atenção ao que as escrituras querem dizer e advertir, mas que Deus por meio de seus autores quis dar um sentido pleno às mesmas. Entretanto, certos partidarismos e zelo por coisas que às vezes não estão de acordo com a palavra de Deus nos direcionam para raciocínios que não são segundo a verdadeira interpretação, mas seguem para uma interpretação na carne e do homem. Este é o motivo de tantas interpretações distintas. Notaremos que, nestas Epístolas, Paulo utilizará dos contextos da vidas dos patriarcas, que estão descritos em Gênesis, para descrever muitas coisas e principalmente para descrever a questão da Lei, pois por meio da vida destes ele descreverá a carne e o Espírito, como veremos mais tarde.
Encontraremos alguns contrastes feitos pelo próprio Paulo na escritura. Veja o quadro:
* Obras da Lei – Graça
* Justiça da Lei – Justiça da Fé
* Servos – Herdeiros
* Ismael – Isaque
* Esaú – Jacó
Todas as palavras utilizadas nestes contrastes servem para que o leitor possa ser instruído na palavra de Deus por meio de símbolos, e estes descendentes representam de forma clara e evidente a mente de Deus e as coisas que haveriam de suceder ao povo de Deus. Vemos, por exemplo, que tanto Ismael quanto Isaque nasceram de Abraão e, além disso, Esaú e Jacó nasceram de Isaque, portanto todos saíram de Abraão, nosso pai segundo a fé. Por isso veremos textos como estes:
Gálatas 3:16
“Ora, as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz: E aos descendentes, como se falando de muitos, porém como de um só: E ao teu descendente, que é Cristo.”
Outro exemplo:
Romanos 9:9-13
“Porque a palavra da promessa é esta: Por esse tempo, virei, e Sara terá um filho. E não ela somente, mas também Rebeca, ao conceber de um só, Isaque, nosso pai. E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço. Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú.”
Existe todo um contexto para que tais pessoas fossem citadas por Paulo, mas primeiramente veja que sempre quando estes personagens aparecerem, Paulo estará ensinando coisas referentes tanto à Lei quanto à Graça, todavia veremos isso mais adiante. Quando compreendemos todas estas coisas, até textos como os de Romanos 9, 10, 11 ficarão muito mais claros e nos mostrarão o que Deus realmente quis dizer quando usou as alegorias de Jacó e Esaú. Contudo, é necessário atentarmos para algumas coisas que são de grande valia para entender o ensino de Deus, pois tanto Jacó como Esaú eram irmãos, assim como Isaque e Ismael, porém Isaque e Jacó foram os que diante de Deus levaram a primogenitura e a benção, ainda que não fossem os primogênitos na carne, enquanto Ismael e Esaú não puderam levar a primogenitura e a herança, ainda que fossem os primogênitos.
Isaque e Ismael
Estes são os dois filhos de Abraão, um que procedeu de Hagar, porém o outro procedeu de Sara, esposa de Abraão. Desde o princípio Deus havia feito uma promessa à Abraão de que de “suas entranhas” procederia um descendente e que este herdaria todas as coisas e todas as promessas feitas por Deus. Importante é que saibamos que quando a promessa foi feita, Abraão tinha por esposa a Sara, e que por meio dessa Deus queria que a promessa fosse cumprida. Vamos atentar para a promessa de Deus:
Gênesis 12:1-5
“Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra. Partiu, pois, Abrão, como lho ordenara o SENHOR, e Ló foi com ele. Tinha Abrão setenta e cinco anos quando saiu de Harã. Levou Abrão consigo a Sarai, sua mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as pessoas que lhes acresceram em Harã. Partiram para a terra de Canaã; e lá chegaram. ”
Veja que neste texto Deus enfatiza que a esposa de Abraão era Sara, portanto podemos presumir que a promessa da descendência que Deus fez à Abraão deveria ser cumprida por meio de Sara, já que ela era considerada a esposa deste, conforme Deus mesmo revelará futuramente:
Gênesis 17:19
“Deus lhe respondeu: De fato, Sara, tua mulher, te dará um filho, e lhe chamarás Isaque; estabelecerei com ele a minha aliança, aliança perpétua para a sua descendência.”
Esta sempre foi a vontade de Deus, porém sabemos que antes de Sara dar um filho à Abraão, Sara não creu na promessa de Deus e chamou Hagar para que esta lhe desse um filho. Entretanto, como vimos, sempre a vontade de Deus foi que o descendente de Abraão nascesse por meio de Sara, através de uma mulher estéril, nascimento que seria de forma miraculosa, assim como foi o de Cristo, ou seja, assim demonstrava-se a fé. Quando Sara não creu, Hagar foi chamada e por meio dela Ismael nasceu, mas este não era o descendente prometido por Deus, e assim ficou demonstrado que a falta de fé acrescentou um descendente que não era o da vontade de Deus. Este nasceu segundo a carne, de forma natural, mas Isaque nasceu de forma miraculosa, por meio de uma mulher que era estéril, e isto é uma parábola para nós, pois o que de fato é considerado filho e herdeiro de Abraão é o que nasceu de forma miraculosa, porém o outro foi enviado para o deserto e não teve parte na herança.
Sara e Hagar
Agora que compreendemos estas coisas, ficará muito mais fácil de entender o que o Espírito quis ensinar, já que toda a Escritura foi inspirada pelo mesmo Espírito que estava em Paulo. O essencial de tudo isso que eu estou escrevendo será visto na revelação da alegoria que Paulo utiliza para retratar as Alianças de Deus, em que os filhos dessas mulheres representarão os que tiveram partes nas alianças de Deus. Por um lado Ismael representa os que estão na carne e por outro Isaque representará aqueles que vieram pelo Espírito e pela Promessa. Uma coisa importante a se observar é que todo o tempo em que Paulo fala das descendências no livro de Gálatas, ele estava com a mente na alegoria de Sara e Hagar. Este é o motivo de muitas vezes ele citar os filhos destas mulheres. Vamos observar o texto principal neste assunto:
Gálatas 4:21-28
“Dizei-me vós, os que quereis debaixo da Lei: acaso, não ouvis a lei? Pois está escrito que Abraão teve dois filhos, um da mulher escrava e outro da livre. Mas o da escrava nasceu segundo a carne; o da livre, mediante a promessa. Estas coisas são alegóricas; porque estas mulheres são duas alianças; uma, na verdade, se refere ao monte Sinai, que gera para escravidão; esta é Agar. Ora, Agar é o monte Sinai, na Arábia, e corresponde à Jerusalém atual, que está em escravidão com seus filhos. Mas a Jerusalém lá de cima é livre, a qual é nossa mãe; porque está escrito: Alegra-te, ó estéril, que não dás à luz, exulta e clama, tu que não estás de parto; porque são mais numerosos os filhos da abandonada que os da que tem marido. Vós, porém, irmãos, sois filhos da promessa, como Isaque.”
Neste trecho temos a clara interpretação e inspiração do que estas alegorias queriam dizer e o motivo pelo qual Paulo estava dizendo essas coisas, isto é, que alguns se infiltraram na Igreja e estavam ensinando os discípulos a ficarem “debaixo da lei”. Note que ele diz que alguns queriam estar debaixo da Lei e ao mesmo tempo diz que os mesmos não estavam escutando a própria Lei, pois a Lei aponta para as duas mulheres de Abraão e, conforme o texto, cada mulher representa uma das Alianças. Hagar representa a Aliança do monte Sinai, isto é, a Primeira. Veja o que diz ainda o Texto:
Gálatas 4:31
“E, assim, irmãos, somos filhos não da escrava, e sim da livre.”
Podemos notar claramente que Paulo está dizendo que não somos filhos de Hagar, pelo contrário, somos filhos de Sara, a livre, logo o que ele está dizendo é que não somos da primeira Aliança, a do Sinai, que era a escrava, mas sim da Livre, que aponta para o monte Sião, conforme diz Hebreus:
Hebreus 12:22
“Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial (a livre), e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembleia...”
O que podemos concluir é que alguns queriam estar debaixo de Hagar, que é a primeira Aliança, mas Paulo os advertia que não era por meio de Hagar que eles herdariam as promessas, mas sim por meio de Sara, pois foi ao descendente de Sara que Deus fez a promessa, logo aqueles que estão em Hagar são tipificados em Ismael, porém os que estão em Sara, a Aliança Eterna, são tipificados em Isaque, aquele que foi chamado segundo a vontade de Deus, ao contrário de Ismael que veio por meio da falta de fé, e a Lei já apontava que a Aliança Eterna foi em Sara:
Gênesis 17:19
“Deus lhe respondeu: De fato, Sara, tua mulher, te dará um filho, e lhe chamarás Isaque; estabelecerei com ele a minha aliança, aliança perpétua (aliança eterna) para a sua descendência.”
Portanto, como o próprio texto já profetizava, a Aliança Eterna seria firmada com Isaque, que procedeu de Abraão por meio de Sara, mas não por meio de Hagar, pela qual nasceu Ismael. Diz a Escritura:
Gálatas 4:30
Contudo, que diz a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava será herdeiro com o filho da livre.
A escrava não herdará, mas o próprio texto diz: “Lança fora a escrava e seu filho” e assim sabemos que os que herdarão são os que são considerados Isaque, não Ismael.
Primeira e Segunda Alianças
Paulo quis, por meio destes exemplos, mostrar duas coisas. Primeiro, que aqueles que estão na Primeira Aliança são filhos de Hagar; segundo, que esses que são filhos de Hagar são servos e não herdeiros, mas que todos os que são de Sara, a segunda Aliança, são herdeiros, já que são filhos da esposa e não da serva. Muitas vezes vemos que Paulo exorta aos irmãos a não se submeteram ao julgo de escravidão para que pudéssemos compreender que era por meio de Hagar que passávamos a ser escravos, mas que em Cristo somos livres e não escravos.
Gálatas 5:1
“Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão.”
Essa expressão “escravidão” indicava Hagar, já que ela era a escrava. Alguns, mesmo depois de terem sidos libertos da escravidão, passando de Hagar para Sara, estavam outra vez querendo retornar à escravidão, que era Hagar, por isso diz: “não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão (Hagar)”. O Filho de uma escrava continua sendo escravo, logo todos os que procedem da escrava serão escravos, todavia os que procedem da esposa do seu senhor são herdeiros e este é o motivo do contraste entre os dois descendentes de Abraão. Isaque, que procedeu de Sara, que era a esposa de Abraão, não pode ser escravo, pois era filho de uma mulher livre que tinha direito às coisas do marido, contudo Ismael era filho de uma escrava que não tinha direito sobre as coisas do seu senhor, e permanecia sendo servo. Assim, aqueles que estão na primeira Aliança são considerados servos, mas os que estão sob a segunda Aliança são filhos, e por isso são herdeiros de todos os bens do seu pai.
Excelente irmão.
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